Na última terça-feira, abordei como os riscos de AVC em mulheres são frequentemente subestimados, um tema que revela a complexidade das questões de saúde feminina. Hoje, a discussão se aprofunda com o fenômeno do burnout, especialmente sob a perspectiva da psicóloga e escritora Ana Luiza Novis, que apresentou suas reflexões no evento Neuro 2026. Novis ressalta que o burnout não é apenas um desafio relacionado ao ambiente de trabalho, mas um reflexo de uma sobrecarga que se inicia muito antes da entrada na vida profissional.
Segundo a especialista, a situação se desdobra em três dimensões interligadas: social, institucional e política. No âmbito social, a pressão sobre as mulheres se intensifica ao longo dos anos, enquanto elas tentam atender a uma infinidade de expectativas que muitas vezes parecem impossíveis de serem cumpridas. “Cuidar, trabalhar e resolver problemas se torna um fardo, frequentemente sem o devido reconhecimento”, explica Novis, evidenciando que a carga mental que as mulheres enfrentam é invisível e repleta de nuances, como a culpa materna e a desigualdade de gênero. Dados do IBGE indicam que, em média, as mulheres dedicam 21,3 horas por semana a tarefas domésticas, em comparação com apenas 11 horas dedicadas pelos homens.
Na esfera institucional, a estrutura organizacional se mostra inadequada para acolher as necessidades de quem tem responsabilidades familiares. Muitas vezes, as empresas esperam que seus empregados ignorem suas obrigações pessoais, resultando em um ambiente que desconsidera a realidade de quem cuida de outros. Novis critica a “cultura da disponibilidade permanente”, que exige jornadas longas e metas excessivas, enquanto ainda expõe as mulheres a assédio moral e sexual, o que agrava ainda mais a saúde mental dessas profissionais.
Por fim, a dimensão política não pode ser ignorada. A interrogação central é: quem cuida de quem cuida? A psicóloga enfatiza que a prevenção do burnout feminino requer intervenções que vão além do espaço individual e que incluem políticas públicas voltadas para o cuidado. Isso implica na criação de mais creches, licenças parentais compartilhadas, igualdade salarial e ambientes de trabalho que sejam psicologicamente seguros.
Novis também destaca a situação crítica nas profissões de cuidado, como as da saúde, onde a exaustão se torna uma realidade constante. Esses profissionais lidam com desafios significativos, como infraestrutura precária e salários insatisfatórios, enquanto a cultura de desempenho excessivo perpetua uma visão tóxica do trabalho. “Estamos vendo pessoas que se viciam em trabalhar longas horas, mas sempre afirmando que está tudo bem”, observa.
Além disso, é importante lembrar que dois terços dos pacientes com Doença de Alzheimer são mulheres, e a previsão é que os países em desenvolvimento enfrentem um aumento significativo dessa enfermidade nos próximos anos. Entretanto, existem 14 fatores de risco modificáveis que podem prevenir até 45,3% dos casos de demência globalmente, percentual que salta para 59,5% no Brasil. Esses fatores incluem desde o nível de escolaridade até questões como depressão, sedentarismo, hipertensão e isolamento social, destacando a necessidade urgente de um olhar mais atento e abrangente para a saúde das mulheres.
Crédito da imagem: Afastamentos por burnout crescem mais de 800% em quatro anos


